Lembram-se de 2012? A Rússia e os EUA Podem Estar a Cooperar Desde Então


A Rússia tem andado a enervar o Ocidente. Primeiro, em 2014, anexou a Crimeia (após um referendo); depois deu sinais de querer ocupar território ucraniano; a seguir, em 2015,  envolveu-se na guerra civil síria (primeiro para proteger a sua base em Latakia, e depois para proteger o seu aliado Bashar al-Assad); entretanto, tem vindo a fazer vários exercícios militares; de seguida vendeu sistemas de defesa S300 ao Irão, ao mesmo tempo que denunciou posições do Hezbollah e do seu arsenal de armas; e agora está a enviar sinais de agressão ao ocidente, tendo deste modo feito com que a NATO colocasse 300.000 soldados em standby para o caso de uma guerra rebentar contra a Rússia.

Há duas semanas atrás, o Presidente Putin deu ordens para que o porta-aviões Almirante Kuznetsov, acompanhado por um submarino, descesse através do canal inglês até ao mediterrâneo para levar a cabo ataques aéreos na Síria. Esta “partida” fez com que muitos políticos ficassem nervosos e com que a NATO ficasse em estado de alerta. Toda a gente se prepara para uma eventual guerra com a Rússia, mas será que se justifica ou a Rússia está envolvida noutra coisa?
A Rússia valoriza a sua independência e identidade. (..) Não queremos o domínio do mundo, nem expansão, nem confrontos com quem quer que seja. - Vladimir Putin

Indubitavelmente, uma declaração muito diplomática. Pessoalmente, não me preocupo com a Rússia (já que penso haver outras nações que representem uma maior ameaça) – e para dizer a verdade, a Rússia teria muito mais a ganhar se trabalhasse abertamente com os Estados Unidos da América (razão pela qual espero que o Presidente-eleito Trump venha a normalizar oficialmente os laços entre os dois países – a velha postura de Guerra Fria está para lá de démodè). Mas enquanto a Rússia não estiver no lugar certo, precisamos de verificar as suas actividades. O Ocidente não se deveria queixar de, nem ficar aborrecido com, as movimentações da Rússia porque, para dizer a verdade, os ocidentais encorajaram os russos: impuseram-lhe sanções que obrigaram Moscovo a aumentar a produção e a venda de armas; levaram-nos a estarem directamente envolvidos na guerra civil síria para demonstrar a eficácia das suas armas aos seus clientes; e incautamente fortaleceram a Posição Russa no painel internacional (já que foram reactivos, ao invés de fazerem uma análise rigorosa da situação).

Enviar o porta-aviões Almirante Kuznetsov, um navio que já teve a sua quota-parte de problemas, pelo Mar do Norte até ao Mediterrâneo é muito simbólico: o barco foi construído, durante a era soviética, no estaleiro do Mar Negro (naquilo que hoje é a Ucrânia); em 1991 (quando a Guerra Fria acabou) navegou para se juntar à Frota do Norte, enquanto aguardava destacamento de volta ao Mediterrâneo. Que item comum se poderá invocar quando se pensa na Ucrânia e a Guerra Fria? Sanções. As sanções dos EUA/Ocidente contra a União Soviética podem ter sido duras mas não foram o suficiente para deitar abaixo o bloco; logo, Putin está a dizer ao mundo que a Rússia está a sobreviver apesar das presentes sanções dos EUA/Ocidente (espoletadas pela crise na Ucrânia), e por isso também não será assim tão fácil deitá-lo abaixo.

Notícias que um terceiro navio da frota do Mar Negro parte para o Mediterrâneo para se juntar às operações anti-ISIS (fonte), na Síria, são no mínimo curiosas. 

Há duas questões que, de quando em vez, vagueiam pela minha mente:

  1. O que é que o Presidente Obama, em 2012, quis dizer quando disse ao então Presidente Medvedev que após as eleições teria mais flexibilidade? Em que é que essa conversa se relaciona com a margem de manobra que a Rússia tem vindo a gozar nos últimos quatro anos? 
  2. E se a Rússia estiver a ajudar os EUA a pressionar os Europeus a investir na sua defesa, de modo a cumprir as suas obrigações perante a NATO? 

A Rússia poderá estar a servir de distracção para os europeus que se concentram mais nos aparentes sinais de agressão de Moscovo do que nos seus problemas islâmicos. Enquanto os políticos europeus reagem às actividades do Putin, à vitória de Trump, e distraem o povo com tudo isso (através da media convencional); o Irão, o ISIS, a AQ, o Hamas, a OLP, o Hezbollah et al infiltram aos poucos os seus operativos de entre os migrantes que agora invadem a União Europeia - que serve de porta de entrada para os Estados Unidos. Estes agentes islâmicos sentar-se-ão aqui e esperarão que líderes como o Presidente Abbas, por exemplo, activem as suas células.

A maioria dos analistas políticos repetem o mantra de que os EUA permitiram que a Rússia assumisse uma posição proeminente no Médio Oriente, mas sempre que me vem à cabeça o tête-à-tête Obama-Medvedev de 2012, tenho sempre o mesmo pensamento: as duas nações têm estado a cooperar por detrás da cortina, ao mesmo tempo que induzem o mundo a pensar que são inimigas. Posto isto, a presença russa no Mar do Mediterrâneo é para lutar contra o ISIS; para manter o al-Assad no poder; para preparar uma possível incursão militar na Líbia (que também está relacionado com operações anti-ISIS, já que o grupo controla as regiões líbias que produzem petróleo); para manter os europeus na ponta dos dedos; ou para tudo o atrás descrito? Poderemos estar aqui a falar de uma operação multifacetada.

A União Europeia (menos o Reino Unido) deveria pensar melhor nesta situação, especialmente se Washington e Moscovo estiverem de facto a cooperar um com o outro para a pressionar (entre outras coisas) – o que poderia ser benéfico a longo prazo (i.e. eventualmente teriam que cumprir as suas obrigações no campo da defesa), mas perigoso a curto prazo (i.e. ficariam mais vulneráveis a ataques terroristas).
Engaja a pessoas com aquilo que esperam; pois é aquilo que conseguem discernir e confirma as suas projecções. Assim ficam mais descansados porque se vêem perante padrões de resposta previsíveis, ocupando deste modo as suas mentes enquanto tu esperas pelo momento extraordinário – aquele que não conseguem antecipar. - Sun Tzu

Poderíamos perguntar: o que é que a Rússia recebe em troca de estar a trabalhar por debaixo da mesa com os americanos? Essa é uma pergunta que a China deve responder...quando olhamos para os países asiáticos que colaboram com o Kremlin e a Casa Branca.


(Imagem: Obama e Medvedev em 2012 - NYT)

[As opiniões expressadas nesta publicação são somente aquelas do(s) autor(es) e não reflectem necessariamente o ponto de vista do Dissecting Society (Grupo ao qual o Etnias pertence)]

Comentários

  1. A meu ver, a rússia está a distrair toda a gente, a europa em particular, enquanto os terroristas islâmicos infiltram Portugal e a Espanha através de Marrocos. Isto é uma verdadeira ameaça à segurança nacional da península ibérica. Mas aí, onde ficam a rússia e a américa na tua equação, Max? Estarão a colaborar para enfraquecer os europeus?

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  2. Aqui no Brasil, alguns estão cogitando uma guerra mundial e ataque ao Brasil. Sério, nem a Rússia nem os EUA querem um conflito de enormes proporções. Cada nação quer exercer o seu domínio em suas respectivas regiões e polarizar o planeta.
    Agora fomentar conflitos em locais generalizados deve ser o objetivo! :)

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    1. Ataque ao brasil, porquê? O que é que o seu país fez, Aparecido?

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