França Condecora um Príncipe Saudita com a Legião de Honra: Quid Pro Quo


Na semana passada, o Corrière della Sera noticiou algo que passou despercebido pela maioria: a França condecorou um Príncipe saudita, Mohammed ben Nayef, com a Legião de Honra. A cerimónia, ao que parece, foi organizada pelo governo francês às escondidas; o que não só suscitou a ira dos gauleses em todos os partidos políticos como também levantou muitas questões acerca das intenções de François Hollande. Logo, iremos olhar para o significado de honra e verificar o porquê da necessidade de tal deferência para com os sauditas.

Reflexões Acerca da Honra

Honra: “nobreza da alma, magnanimidade, desprezo pela maldade. Privilégios de estatuto ou nascimento” (Dr. Samuel Johnson, 1755)

Existem várias definições deste conceito abstracto mas todas elas concordam que honra implica mérito, grande privilégio e boa reputação. As mentes mais refinadas, claro, elevam o conceito para patamares mais altos tais como a nobreza de espírito, desprezo por comportamentos baixos, aversão ao mal, idoneidade e uma reputação íntegra. Mas, quando se olha para o mundo hodierno facilmente se chega à conclusão de que raras são as mentes refinadas, e honra está longe de ser o que era no passado.

Hoje, honra significa ego. Nos tempos que correm, honra pode ainda significar “privilégios” mas estes são concedidos a falhados arrogantes; a gente com comportamentos dignos do esgoto, a indivíduos que subsistem no relativismo; a pessoas que odeiam a ética como sendo algo para tolos; a sub-humanos que trabalham com o “Lado Negro da Força” e a criaturas que se arrastam na lama do preconceito – de todas as formas e feitios.

Honoré Balzac tinha razão quando lamentou que os homens de carácter "cansados de dar sem receber, ficam em casa, e deixam os tolos a reinar no seu território".

Legião de Honra

A Legião de Honra (ou La Légion d'Honneur, em Francês) é a ordem e condecoração de mais alto grau em França. Foi criada por Napoleão Bonaparte, em Maio de 1802, como ordem de mérito militar e civil “conferida independentemente do berço ou religião desde que o recipiente jure defender a liberdade e a igualdade.” (in Britannica)

Em 2016, a França condecora pessoas que não defendem nem a liberdade nem a igualdade. A Gália afirmou que a condecoração do Príncipe Mohammed bem Nayef foi feita devido ao seu “combate contra o terrorismo e extremismo” - que estranho, uma vez que é tido e sabido que a Arábia Saudita patrocina terrorismo e, em particular, o extremismo. A França faz-se agora de novas, porque sabe muito bem que sofreu inúmeros ataques terroristas (só em 2015, sofreu cinco ataques em Janeiro e seis ataques coordenados em Novembro) por grupos que professam o Wahhabismo, a oficial corrente de pensamento Islâmico extremista da Arábia Saudita.

O pessoal de François Hollande achou por bem honrar um Príncipe cujo país é a própria antítese da “liberdade e igualdade”. Por isso, quais as trocas que estão a ser feitas?

Quid Pro Quo

Há muita informação à disposição acerca da venda de armas francesas às nações árabes, logo não precisamos de falar disso. Também existe abundante informação acerca da velha Política Árabe francesa, logo também não precisamos de falar disso agora. Fala-se da cooperação entre a França e países déspotas, e a forma como aquela fomenta guerras civis para os seus próprios propósitos imorais, por isso definitivamente não precisamos de abordar o assunto. Mas é parco o material acerca das trocas obscuras de informação entre a França e as nações árabes.

Os franceses querem ser uma grande influência no Médio Oriente – é compreensível, afinal eles são os co-arquitectos do Acordo de Sykes-Picot; e para atingir o seu objectivo estão dispostos a fazer qualquer coisa (incluindo sabotar Israel). Para além do mais, a Gália está a perder África para a América por isso, de novo, é compreensível o seu comportamento traiçoeiro. Mas o que o Dissecting Society não quer compreender é como é que uma nação que deu à luz os direitos do homem; um país que lutou pela liberdade, fraternidade e igualdade, pode agora tão descaradamente sacrificar esses valores. O DS não entende como é que a França se atreve a propôr-se dar a vida de cidadãos europeus em troca de informação, de uma falsa noção de poder. Não admira que os americanos não tenham sido totalmente frontais em relação aos ataques terroristas na Gália: parece que França não é de se fiar.

Longe de mim querer ser Maquiavélica, mas devo apresentar um outro cenário: a França condecorou o Príncipe saudita com a Legião de Honra de modo a enviar a mensagem de que as Famílias Reais Árabes são as únicas que França estará disposta a reconhecer, a aceitar e a trabalhar com no Médio Oriente. Se este for mesmo o caso: a França que tenha cuidado com aquilo que deseja (como já dizia o bom Merlin).


[As opiniões expressadas nesta publicação são somente aquelas do(s) autor(es) e não reflectem necessariamente o ponto de vista do Dissecting Society (Grupo ao qual o Etnias pertence)]

Comentários

  1. Olá, Max!

    Heeheeheeh, palavra de honra, pá: a Honra já não é um Valor; é um mercadoria transacionável contra armamento bélico que para o vendedor serve para aumentar o PIB do seu país e, para o comprador serve para se defender contra pseudos inimigos, os quais podem ser cidadãos nacionais ou países inimigos.

    São pequenas nuances, numa era em que estamos todos apostados em acabar uns com os outros ou em corrompermo-nos até conseguirmos um lugarzito como chefe disto e daquilo para fugirmos à justiça ou ainda incitarmos os povos a odiarem-se uns aos outros.

    O presidente francês está alinhado com a desordem mundial; D**s o livre ter um bando de franceses a chorarem perante a ameaça dos Sauditas fecharem a sua casa de verão na Côte d'Azur e deixando uns jardineiros, criadas e jovens prostitutas sem pão; seria calamitoso se os saudis fechassem os cordões à bolsa na Disney Paris; seria fúnebre se os qataris deixassem cair o Paris St-German, onde iriam os muçulmanos planear as suas travessuras? Como fariam os doidos dos fãs franceses sem futebol?
    Não, não e não a medalha da Legião de Honra está bem entregue aos donos de França: Árabia Saudita hoje e amanhã o dono do Qatar por entreter as massas e quid pro quo semelhantes.

    Peace be upon you, shalom, salam aleikum, a paz!

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    1. Olá Lenny :D!

      Realmente, minha cara, a honra é uma mercadoria, mais um produto disponível no mercado.
      Olha bem para o que está a acontecer no Brasil.
      Tens toda a razão quanto aos sauditas e qataris...

      Beleza, obrigada pelo teu super comentário :D.

      Beijocas

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