África: A Próxima Etapa da Neo-Guerra Fria


Tem havido um crescente interesse na África subsariana por diversas razões: os abundantes recursos naturais (e.g. petróleo, gás, mais de 30% das reservas minerais do mundo), é um mercado de consumo em ascensão, uma futura potência manufactureira (podendo vir a substituir a China); e representa cerca de um terço dos membros da ONU.
Logo, não é surpresa nenhuma que a rivalidade entre os EUA e a Rússia se tenha transferido para o Continente Africano; mas qual destas duas potências apresenta as características mais apropriadas para contribuir para a estabilidade e segurança africanas?

Rússia
Alguns analistas dizem que a Rússia está agora a virar-se para África como forma de mitigar os danos causados pelas sanções económicas impostas pelo ocidente; mas isto não pode ser verdade porque mesmo antes da crise ucraniana (que resultou nas mencionadas medidas de coacção), a Federação Russa já havia vindo a esticar a sua mão para o continente africano, tal como Steven Blank escreveu há uns anos atrás “os recursos africanos atraem as elites russas porque se encontram relativamente por explorar e podem contribuir para a fortuna russa, a sua influência política e habilidade para afectar as políticas de gás natural europeias”. Posto isto, os tão publicitados interesses russos na África subsariana deverão ser interpretados como estando em conformidade com a (há muito planeada) política externa da Federação Russa.

É fácil para a Rússia chegar aos países africanos, já que muitos deles insistem em fazer uso da velha retórica comunista (e.g. culpar os ex-imperialistas por todos os seus males) logo, o Presidente Putin aproveita-se disso para atingir os seus objectivos. Um bom exemplo do que falo é um dos principais associados da Rússia: Angola.
Este país tem sido muito criticado por ter prendido 15 activistas políticos, incluindo um Luso-Angolano (Luaty Beirão) que até à semana passada estava em greve de fome, e foi visitado pelo embaixador de Portugal – como sempre, a reacção foi "Eles acham que Angola até hoje é escravo, que nós somos escravos de Portugal (…) não podemos ser ouvidos e que Portugal é que manda, que Portugal é que diz e que Portugal é que faz. Os portugueses têm que saber que Angola é um Estado soberano”; pois...é exactamente deste tipo de coisa de que a Rússia se alimenta (tal como o discurso que o Pres. Putin fez na UNGA nos demonstrou).

Na política agarram-se oportunidades. Contudo, a Rússia não só agarra oportunidades como também as cria; e logo os africanos dever-se-iam perguntar até onde a Rússia estará disposta a ir para expandir a sua esfera de influência e aumentar a sua riqueza?
Se os líderes africanos são sinceros quando, no debate anual da ONU, dizem que estão a lutar pelo desenvolvimento humano das suas respectivas nações, então teremos de lhes fazer recordar que ajudar a Rússia com os seus interesses estratégicos pode custar caro a África, uma vez que a Rússia se concentra primeiro na expansão da sua indústria militar – querendo isto dizer que poderemos contar com um aumento de guerras civis, ou conflitos regionais, na África subsariana de modo a encher os cofres russos. $13.3 mil milhões ganhos na venda de armas em 2014, e uma estimativa de mais de $13 mil milhões em 2015 (in Russia's 'Charm Offensive' In Africa: The Case of Angola; 19 de Outubro de 2015), representam um incentivo suficiente para promover o derramamento de sangue afim de se vender mais armamento.

EUA
A América demorou a virar-se a sério para África, após uma série de erros cometidos durante as guerras da independência. Mas dado o perfil americano, dever-se-ia inferir que os EUA – de modo a equilibrar as tensões durante a Guerra Fria – fizeram algumas concessões aos Soviéticos; mas esta troca não só atrasou o desenvolvimento dos africanos como também atrasou a penetração americana em África (para lá das habituais operações da CIA). Não obstante, os Presidentes Bush e Obama viraram essa página negra e redireccionaram o olhar do seu país para aquele continente estratégico.

Enquanto a Rússia deseja usar África para controlar os preços do petróleo e do gás, afim de beneficiar o seu cartel; os EUA vêem aquele continente pelo que ele realmente representa: uma alteração completa de como se joga o jogo da política externa. Ao investir no petróleo, gás e nas indústrias mineiras em África, os EUA diminuem a excessiva relevância concedida às nações problemáticas (que patrocinam terrorismo), ficando deste modo numa posição mais forte para negociar com elas. Contudo, a América não ignora que esta nova realidade fará com que esses países, ricos em petróleo, reajam através do financiamento de conflitos em África para manter outros investidores afastados; logo, o método favorito dos americanos para penetrar no continente  é o forjamento de parcerias com vista à resolução de problemas de segurança (ao contrário da Rússia, que os alimenta).

Um exemplo desse nível de colaboração é o Programa Estatal da Guarda Nacional. Segundo Scott Morgan, a “Guarda Nacional é considerada capaz de oferecer uma conjunto de competências únicas que outros ramos das Forças Armadas americanas não conseguem” e, assim, duas novas parcerias foram criadas:
  • Parceria entre o Kentucky e o Djibouti
  • Parceria entre a Guarda de Massachusetts e as Forças Armadas do Quénia (cujo acordo foi formalizado no dia 2 de Junho deste ano)
Segurança gera investimento. Investimento gera desenvolvimento humano. Desenvolvimento humano, a longo prazo, gera posturas mais democráticas (pelo menos na teoria). Logo, a aposta americana em África faz muito mais sentido.

Conclusão
Duas potências disputam o mesmo continente com dois métodos diferentes.
Se os líderes africanos desejam realmente colocar os interesses do seu povo em primeiro lugar, então deveriam acabar com qualquer tipo de tensão com os EUA (um símbolo do ocidente) porque apesar das suas imperfeições (obsessão pela democracia, direitos humanos; a sua ambiguidade ocasional etc), a América permanece sendo o parceiro de maior confiança para construir sociedades estáveis e seguras – só que o tango tem de ser dançado a dois. O perfil russo sugere que este país não é o melhor parceiro para garantir estabilidade no continente africano, porque quando os russos expressam disponibilidade para contribuir para a segurança de África, nós só nos devemos lembrar que a Rússia, infelizmente, é uma faca de dois gumes.

Comentários

  1. Olá, Max!
    África principalmente a Austral já teve a sua quota parte de "russialização e chinalização" tanto mercantil como ideológicamente, durante as guerras de libertação e logo após as indepedências; em quê que isso deu e contribuiu para o desenvolvimento de África? Deu em pagamento de dívidas infindáveis à Rússia e à China por armamento de guerra obsoleto e ineficaz. Quanto ao desenvolvimento humano deu que nas praias, os russos isolavam-se da população africana e os chineses chegaram a exigir uma localidadezinha para eles; quão ridículo foi isto.
    Bom como dizem os brasileiros: eles são nêgos, maiores de idade e livres.
    Eu mudaria a agulha até porque os americanos são abertos ao diálogo e amam a "freedom" em toda a sua extensão. Não são santos mas também não são dissimulados como os camaradas chineses e os seus comparsas russos: é a minha opinião.

    Max, bom trabalho e até para a semana

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    1. Olha quem está de volta!

      Olá Lenny :D!

      Ora muito bem dito. Ainda há gente a dizer que foi a colonização que estragou o desenvolvimento de África: dá para acreditar nisso?
      Concordo, os americanos não são perfeitos mas são mais abertos e ao menos, para esconder o seu verdadeiro jogo, lá vão fazendo boas coisas (como construir escolas, universidades, clínicas, estradas etc) para beneficiar o povo e induzi-lo a amar a democracia.
      Assim como assim: I take the Americans any time.

      Lenny, estou feliz por te ter de volta. Já estávamos com saudades! Até para a semana e obrigada pelo teu comentário :D.

      Beijocas

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  2. Os angolanos são mesmo uns parvos, e quando angolanos aqui falo dos políticos que lideram o país. A linguagem empregada é inapropriada. E mais, depois de lhes termos dado permissão para fazerem lavagem de fundos em portugal, através da compra de empresa legítimas, acho que temos o direito de dizer e fazer o que quisermos!

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    1. Olá Ana :D!

      Concordo que a linguagem foi extremamente imprópria. Se a Ana tiver provas do que diz, teremos todo o prazer de lhes dar uma vista de olhos....

      Ana, obrigada pelo seu comentário :D.

      Cumprimentos

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