O Desprestígio dos Prestigiados: Mário Soares



As palavras têm realmente vindo a perder o seu significado. Por exemplo, há algo curioso acerca do vocábulo “prestígio” - qual o seu verdadeiro significado? Nos bons velhos tempos, prestígio significava “grande respeito, honra e boa reputação”, ultimamente significa o oposto.
Os exemplos de indivíduos tidos como prestigiados pelas razões erradas abundam; mas, há um exemplo português que é gritante há muitos anos: Mário Soares.

Mário Soares goza de um estatuto de herói por ter sido um activista político no tempo do Estado Novo; por ter sido preso pela PIDE duas vezes; por ter tido que se exilar em Paris entre o créme-de-la-créme da sociedade; por ter sido o Ministro dos Negócios Estrangeiros do governo Provisório, no pós-25 de Abril; por ter levado a cabo uma descolonização africana de forma incompetente, para mais tarde ter sido recompensado com dois mandatos da Presidência da República Portuguesa. Não se pode negar que este dilecto membro da esquerda-caviar tenha trabalhado imenso, com uma paixão intensa pela sua ideologia inconsequente; mas este político desconhece o significado de honra e respeito pelo outros. Vejamos o seu papel na descolonização:

“Mas o processo de descolonização em Portugal, no formato, não deverá decorrer de modo muito diferente do da Inglaterra e França.” 

Para começar, Mário Soares expressou a sua máxima ignorância política ao proferir tais palavras, porque a colonização portuguesa foi muito diferente da inglesa (que não praticou assimilação para não dar direitos aos negros), logo o processo de descolonização jamais poderia ser igual. A colonização francesa aproximou-se à portuguesa (onde se verificou a assimilação dos negros com direito a nacionalidade e direitos enquanto cidadãos da metrópole), mas mesmo assim não foi igual.

A descolonização em Portugal não decorreu de modo aproximado ao de Inglaterra e França: por exemplo, Inglaterra deu independência às suas colónias mas manteve a sua esfera de influência ao criar a Commonwealth of Nations, com um PIB anual de mais de 14 biliões de dólares; muitos brancos ingleses ficaram nas ex-colónias africanas, e houve países africanos em que não ocorreram guerras civis a seguir ao processo de descolonização. A França manteve relações especiais com as suas colónias (incluindo o apoio das moedas africanas por parte do Franco francês), França, de um modo geral, permitiu um período de transição antes do processo de independência se completar, as instituições coloniais mantiveram-se na sua generalidade e, os franceses deixaram africanos capazes à frente dos países, garantindo assim uma transição pacífica e estável.

Com Portugal não houve transições estáveis. Em Moçambique, por exemplo, não houve um período de transição resultando, assim, na erosão das instituições estatais e na colocação de pessoas sem formação ou instrução à frente das mesmas; os brancos fugiram em massa do país, e aqueles que fossem considerados hostis (i.e. não socialistas, não comunistas) receberam a ordem 20/24 – ou seja, tinham 24 horas para sair do país e levar não mais do que 20 Kgs. Claro, a CPLP nasceu, mas não há confiança entre as ex-colónias e Portugal, após a arrogância deste no período de descolonização.

“Parece-nos importante que as populações sejam consultadas e que, depois do domínio português, não lhes seja imposto outro domínio que poderá não ter a maioria. Gostaríamos que a liberdade da população fosse garantida e assegurada. (..) A Frelimo [é um movimento] de libertação que  em anos de luta renhida pela independência ganh(ou) indiscutível autoridade. Eles têm chefes muito qualificados e conscientes das responsabilidades.”

Ninguém foi consultado em Moçambique, e duvido que o tenham sido em Angola e noutras colónias. Talvez por "Populações" devamos entender elementos de partidos de ideologia Sino-Soviética. Mário Soares falou de garantias de liberdade da população; pois bem o que se verificou foi: racionamento de comida e bens, senhas, censura, perseguição política, nacionalizações, campos de re-educação (i.e. para onde as pessoas eram levadas para serem torturadas, violadas e até mortas), propriedade privada limitada (só se podia ter uma casa), destruição de infraestruturas e do sistema escolar e de saúde – não, não foi garantida a paz e a liberdade das populações, logo o Sr Soares não quis saber do que falava.
A FRELIMO, que segundo Mário Soares tinha chefes qualificados e conscientes, por falta de assistência deste colocou pessoas analfabetas à frente da ordem e segurança do país; colocou gente que recebeu formação às pressas à frente de ministérios – tudo porque o excelentíssimo Mário Soares não deu alternativas ao africanos.

“Se [os brancos] forem leais para com os novos Estados independentes na cooperação e respeitarem as suas leis, não têm nada a temer. (..) É cómico: a extrema esquerda portuguesa exigia a nossa saída imediata, total e sem condições, mas os próprios movimentos de libertação não exigiram nada disso.”

Mentira.  Em Moçambique, por exemplo, a FRELIMO pediu a Mário Soares um período de transição (baseado na ideia de Eduardo Mondlane) mas aquele rejeitou o pedido alegando o cansaço dos militares portugueses (as nossas fontes moçabicanas dizem que na época Mário Soares ficou conhecido como o mister "ou agora ou nunca").

“Mas estou certo que dois anos após a independência e quando as instituições do País funcionarem razoavelmente, haverá mais portugueses, em Moçambique, que hoje. Isto é, aliás, um fenómeno geral.” 

Dois anos após a independência em Moçambique começou a guerra civil dentro do contexto da Guerra Fria. Mário Soares não sabia que esta se travava desde o pós-guerra (código: WWII)?
Isto quer dizer, que Mário Soares tomou decisões ignorando a conjuntura internacional e sujeitando milhões de africanos (brancos e negros) ao sofrimento, à guerra, a doenças, à fome, à miséria, à deslocação de refugiados, e à erosão dos alicerces da sociedade moçambicana e angolana (por exemplo) por décadas e décadas.

“[Q: Não existem portanto planos concretos para absorver os retornados?] Há investigações adiantadas.”

Esta frase de Mário Soares faz-nos lembrar os regimes comunistas, nas ex-colónias, que diziam “Estamos a Estudar” quando na verdade nada estavam a fazer.
Pois bem, as “investigações adiantadas” traduziram-se em colocar cidadãos portugueses a viver em campos de refugiados sem condições sanitárias (nestes, estive eu pessoalmente a visitar familiares na altura); outros foram colocados em edifícios inacabados igualmente sem água potável ou condições sanitárias.
A piada do século é quando dizem que os “retornados” eram os portugueses que foram para África e voltaram depois das independências; mas dado o processo de assimilação que Portugal ali levou a cabo (tendo inclusive convencido os negros de que eram cidadãos da República Portuguesa – a minha avó, negra, ainda possui o seu BI da era colonial), eu diria que retornados são todos os cidadãos das colónias que contribuíram para o enriquecimento dos cofres portugueses e que optaram por irem para Portugal.

Mário Soares é um político irresponsável. Tomou decisões sem ter em conta o contexto internacional no qual Portugal se inseria, ou se calhar até teve, só que quis dar mostras de quão bom socialista é ao mesmo tempo que cedia à pressão dos americanos (que queriam um Portugal mais fraco, mais pequeno) para receber ajuda monetária destes; à custa de africanos. Que prestígio é esse?

Se políticos como Mário Soares, Almeida Santos e derivados, são as pessoas com quem devo socializar ou aspirar a ser, então prefiro ficar-me pelo meu parco círculo lusófono e permanecer tal como Eu Sou.

(Imagem [Ed.]: Mário Soares - Google Imagens)

Comentários

  1. Olá, Max!
    Escuta os portugueses partiram em massa porque lhes faltou espinha dorsal; andaram por lá a convencer os blacks de que eles eram também naturais daquele pedaço de terra, mas quando chegou a hora da verdade pisgaram-se ao magote.
    Se os portugueses tivessem ficado no seu "país" talvez se tivessem evitado as desgraças que ocorreram em Moçambique; e se tivessem feito finca pé? Será que o Machel e a frelimo tê-los-iam mandado para campos de concentração, como fez o Hitler aos judeus? Claro que não, e se por alguma estupidez comunista tentasse algo parecido, os moçambicanos brancos ter-se-iam aliado à Remano e a guerra cívil não teria durado quase 20 anos; se os moçambicanos brancos tivessem lá ficado, os moçambicanos pretos não teriam sofrido horrores, porque haveria inter-ajuda perante a luta, a educação escolar não teria ido para o brejo, o emprego não teria sido inexistente; os frelimos teriam medido as suas acções totalitárias e despóticas.

    Sim Mário Soares foi um nulo e ignorante (não conhecia África nem as sua complexidade moral e social), mas Almeida Santos foi desonesto e quiça traidor porque viveu em Moçambique muitos anos e quando chegou a hora de contribuir para aquele país, ele simplesmente comportou-se como um colonialista e explorador da pior espécie, visto que defecou sobre nos moçambicanos brancos e pretos ao concordar com os termos do Acordo de Lusaka; que lástima!

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  2. Mais um político irresponsável! É pena que tenha estragado a vida de tanta gente, pergunto-me se dorme bem de noite?

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