Oiçam-se Ao Falar



Quando eu era menina e moça dizia-se “Quando um burro fala o outro baixa as orelhas”; desde então aprendi a ouvir mais do que a falar.
Às vezes, em Moçambique desapareciam de cena vizinhos, amigos e familiares e toda a gente sabia que havia sido obra da PIDE (polícia secreta do tempo da ditadura portuguesa); então quando aparecia um estranho no bairro a perguntar por alguém, mesmo que se conhecesse a pessoa, a resposta era uma encolhidela de ombros ou “não conheço”.
Nas reuniões familiares, as crianças e jovens eram sempre advertidas para não falarem da sua vida a estranhos, eram porém encorajadas a estar atentas às conversas e, até quanto ao meio ambiente dizia-se “tira a fotografia do sítio” - ao tornar-me mãe dei o mesmo conselho aos meus filhos.

Portanto, meus caros leitores, hoje estou profundamente grata por me terem ensinado a “ouvir” porque este simples exercício ajuda-me imenso no momento de articular o meu discurso e o meu pensar.
Hum... que quererá esta agora? Estais vós, a questionar-vos!
Quero tudo, porque pago o cabo televisivo; quero tudo, porque o pop-culture deve ser remetido para perto dos canais dos países do leste; quero tudo, porque exijo que os comentadores políticos façam sentido, quero tudo, porque não quero ficar demente ao assistir programas de televisão; quero tudo, porque exijo que os comentadores políticos, os comentadores dos temas da actualidade, os entrevistadores e seus convidados, os moderadores de programas, tenham dó dos telespectadores e comecem por abandonar o português falado nos reality-shows e, mais importante, que aprendam a ouvir-se a si próprios.

Um ser humano tem o direito de se contradizer. Mas se uma pessoa o faz duas ou três vezes na mesma conversação e, ainda se convence de que está absolutamente correcto, isso é perturbante.
Ultimamente tenho andado bastante perturbada: os talk-shows em Portugal estão recheados de gente que faz uso da contradição após contradição em menos de uma hora, sem nenhuma consequência e sem interpelação de espécie alguma.
Será que as pessoas estão surdas ou será que esses programas são desenhados para intoxicar os espíritos?
Será que essas pessoas se ouvem? Ou será que as pessoas estão sedentas de atenção nem que seja pela pior via?

Até para a semana!  

Comentários

  1. Olá Lenny,

    Deixa-me adivinhar: este tema está relacionado com aquele programa de histéricas ao qual não consegues parar de assistir na TV? Que pachorra a tua.
    Não obstante, o teu conselho é fabuloso porque as pessoas, realmente, não se ouvem quando falam, acabando por proferir as maiores incongruências do mundo. Já para não falar que fazem figura triste de si, embora exibam um ar de superioridade intelectual que não possuem. Enfim...

    Este conselho também deve ser seguido pelos políticos (principalmente por esses). Devem jogar com as palavras, mas essas devem fazer sentido e ser de difícil refutação.

    Good job, ma'am.

    Beijocas

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    1. Olá, Max!

      Não é só nesse programa, a incongruência reina em quase todos os talk shows em Portugal: é uma rebaldaria!
      Ai coitados dos políticos, eles são os mestres do discurso incoerente e da malaise ética que se instalou em todo o território nacional: dègôutant!

      Bjcas e boa semana de trabalho

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  2. Opá, lenny, eu não teria dito melhor! Também odeio quando as pessoas se contradizem mil e uma vezes na mesma conversa crentes de que estão cobertas de razão e sabedoria, mas que nojo! Será que ouvi agora? Sim, ouvi-me bem... :-)
    Bem, agora só para a semana, por isso minha gente: Shabbat Shalom!

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    1. Hey,hey,hey....
      Ó pá sei que não queres ver o programa do Milton, mas deverias passar por lá uma só vez, para veres o chorrilho de bojardas e bullshiteria que as duas esquerdistas pronunciam no programa: quel dommage!

      Boa semana de trabalho

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  3. Ó lenny, mas quem é que vai seguir o teu conselho? Só se forem os estrangeiros! Em portugal, as pessoas não gostam nem de se olhar ao espelho quanto mais se ouvir. Olha, se gostassem não se ouviria tanta barbaridade na televisão e na rádio. Mas conselho é de graça...
    :-P

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    1. Olá, Cally!

      Por ser de graça ninguém vai querer; sei bem o que queres dizer.

      Lá fora quando aparecem uns incongruentes como aos de cá, a outra parte diz-lhe logo "you're not listening to yourself" simplesmente assim. Porém aqui as pessoas parecem não gostar de confrontar nem ser confrontado, olha o nível da conversação e das relações interpessoais.

      Boa semana de trabalho e bjcas.

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  4. Upps, tenho de seguir esse teu conselho, lenny! :)

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    1. Olá, Leila!
      It's for free, my darling!

      Aquele abraço

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