Iraque, Líbia & Síria: O General Michael Flynn Tem Razão?


O General Michael Flynn, o ex-director da Agência de Informação da Defesa americana, disse que remover Saddam Hussein foi um enorme erro. Por mais brutal que Saddam Hussein fosse, foi um erro eliminá-lo assim simplesmente. O mesmo se aplica a Muammar Gaddafi e à Líbia, que agora é um estado falhado. A lição histórica a ser retirada é que foi um falhanço estratégico entrar no Iraque. A história não será e não deve ser branda no que toca a essa decisão.” - o General Flynn tem razão no que toca à Líbia, mas quanto à entrada no Iraque discordo porque não foi nesse ponto que a América falhou.

A guerra do Iraque foi bastante controversa. Foi feita na base da existência de um programa de ADMs que muitos (incluindo eu) disseram não existir; contudo relatórios recentes indicaram que afinal as ADMs foram encontradas pelas forças americanas e iraquianas, durante as suas operações no terreno. E para pôr mais sal na ferida, recebemos a informação de que as ADMs do Saddam foram provavelmente transportadas para a Síria antes da invasão americana. Posto isto, deveríamos reconhecer que talvez o intel americano não tivesse estado errado acerca do programa de ADMs de Saddam mas que falhou em apresentar um cenário completo acerca da realidade no terreno e, em antecipar os passos preventivos de Saddam para proteger as suas armas.

A Justa Causa da Guerra do Iraque

Sob o comando de Saddam Hussein, O Iraque foi um estado patrocinador de terrorismo já que “providenciou quartéis-generais, bases de operação, campos de treino, e outro tipo de apoio a grupos terroristas” (fonte, em Inglês). O Iraque albergou Abu Musab al-Zarqawi (o fundador do ISIS) o que em última estância cria o elo entre Saddam e a Al-Qaeda (tendo vários agentes da AQ se refugiado em regiões do Norte do Iraque). Para além do mais, Saddam Hussein patrocinou terrorismo palestiniano (durante a Segunda Intifada chegou mesmo a pagar milhares de dólares à famílias dos bombistas suicidas, por exemplo) e como sabemos que Israel tem sido o terreno de teste para o terror global, há bases para pensar que Saddam possa ter contribuído para vários ataques terroristas à volta do mundo até à sua morte.

O Iraque, sob o domínio de Saddam, era uma ameaça à segurança internacional, por isso fazia todo o sentido atacar aquele país (após o 11 de Setembro), especialmente quando a Al-Qaeda podia andar livremente naquele território. Juntando isto à suspeita de que Saddam Hussein estivesse a criar um programa de ADMs que poderiam vir a cair nas mãos dos seguidores do Bin Laden, temos de concordar que o perigo era maior do que nos fora apresentado na altura.

Por isso, discordo do Gen. Michael Flynn: a guerra no Iraque não foi um falhanço estratégico, mas o programa de construir a nação e a ambição da democracia liberal foram.
Impôr a democracia liberal num país que jamais havia conhecido a democracia, na verdadeira acepção da palavra, foi um erro crasso. Um erro que tem sido central na política externa americana há décadas, e a América resiste à realidade de que talvez a democracia liberal não seja aplicável a todos os países do mundo. Após o exemplo iraquiano, a América tem de se convencer de que alguns países dão-se melhor ou com democracias iliberais ou mesmo com ditaduras militares.

O que é mais conveniente: ter uma nação iliberalmente democrática, ou mesmo uma ditadura militar, onde o desenvolvimento humano é alto; ou ter uma democracia liberal onde a corrupção corrosiva é comum e o desenvolvimento humano é imoralmente baixo?

O principal falhanço do ocidente, no Iraque, foi o ter negligenciado o bem-estar do povo iraquiano para se concentrar somente num Iraque que pudesse ser moldado à imagem e semelhança ocidental. Nesse processo, empurraram os homens do Saddam para uma situação em que formaram grupos insurgentes e a fazerem alianças improváveis com grupos como a Al-Qaeda (NB: hoje, sabemos que o número 2 de Saddam Hussein esteve por detrás da ascensão, treino e financiamento do ISIS) em vez que negociarem com aqueles que controlavam os alicerces daquele país.

Síria: Evitar o Mesmo Erro

O Iraque caiu nas mãos do Irão e agora está a ser dilacerado pelo ISIS. A Líbia perdeu Muammar Gaddafi e agora é um estado falhado prestes a cair nas mãos do ISIS também. A Síria tem estado numa guerra civil há quase cinco anos e o Ocidente deseja cometer os mesmos erros do passado, em nome da democracia liberal. Este objectivo deve ser veementemente colocado em causa.

Os EUA têm estado a insistir para que o Al-Assad parta (e para esse fim aliou-se a Erdogan, apesar das provas de que a Turquia tem andado a patrocinar o ISIS). O Reino Unido desviou-se ligeiramente deste objectivo e prefere concentrar-se na luta contra o ISIS, assim como a França e a Rússia. Por isso, eis o cenário actual: Bashar Al-Assad não é politicamente apetecível, penso concordarmos todos nesse ponto; mas, neste momento, depô-lo em nome da democracia não é a solução, e muito menos algo sábio de se fazer.

Queremos parar o fluxo de migrantes sírios para a Europa e o Ocidente (como um todo)? Falemos com as nações árabes para os receber – relembrando-lhes diplomaticamente o seu papel na criação do problema. Arrancar Bashar al-Assad do poder não irá resolver a crise dos migrantes, pelo contrário, só irá agravar a situação assim que as pessoas começarem a fugir do ISIS, al-Nusra e todos os outros grupos jihadistas que competem pela Síria.

A República Árabe Síria tem de ser estabilizada. Para se atingir este fim, precisamos de dar apoio às forças anti-Jihad: neste momento, as únicas forças anti-Jihad garantidas são as forças do Assad (com apoio russo e iraniano), os Curdos no Norte e os Druzes no Sul. Depois destas forças derrotarem todas as forças jihadistas e da Síria estar segura; só então poderemos começar a falar acerca de uma transição política. Esta transição deve ser planeada e aprovada por Sírios (de todas as facções), com mediação (NB: mediação, não imposição de valores democráticos ou qualquer outro paradigma ocidental) e financiamento internacionais (notem que se a Liga Árabe se oferecer para dar apoio financeiro, incorre-se no risco de fundos serem canalizados para as suas respectivas denominações islâmicas criando, assim, mais tensões).

Por isso, falar em depôr Bashar al-Assad – um líder secular – é contraproducente. Por isso, antes de tudo o mais, concentremo-nos no presente inimigo comum.


(Imagem: A Marinha em Bagdade - Donald Maxwell)

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