Contraterrorismo: Desengajamento Como Medida Eficaz?

Monge Diante do Mar - Caspar David Friedrich

Alguns académicos e figuras públicas defendem uma abordagem mais holística ao Contraterrorismo (CT); porque na sua opinião os esforços militares (i.e. abordagens severas) por si só não resolverão o problema e, logo, medidas suaves devem ser aplicadas ao combate ao terrorismo. Existem três medidas suaves mais comuns em CT: desradicalização, contra-radicalização e desengajamento.
Discutiremos todas as medidas, contudo esta semana começaremos pela última: desengajamento.

Desengajamento é um processo através do qual se interrompe a mobilização (para a violência) de um indivíduo radicalizado.

A idéia por detrás do desengajamento (ou desmobilização) é que o elemento radical que cometeu - ou está prestes a cometer - actos terroristas será conduzido a alterar o seu comportamento ainda que lhe seja permitido manter as suas ideias radicais/ideologia.
Antes de continuarmos esta discussão, precisamos de olhar rapidamente para o processo de radicalização.

Segundo Bill Braniff, o processo de radicalização (baseado no modelo de radicalização de Peter Neumann) tem quatro componentes:
Descontentamento: a idéia de que haja falta de igualdade ou justiça.
Abertura cognitiva: a idéia de que um indivíduo possa estar vulnerável ou aberto a sugestão e persuasão.
Ideologia: um propósito inscrito numa crença que proporcione uma directiva para a acção.
Mobilização: a idéia de que não só se produzem determinados pensamentos mas também se age de modo a obter determinados resultados violentos.
A radicalização não é um processo linear nem determinador, querendo isto dizer que poderá não se tratar de um processo de passo-a-passo; mas sim, uma combinação de alguns ou todos os elementos.
Contudo, presume-se de que o processo funcione do seguinte modo: apercebimento da sensação de injustiça ou de vitimização (descontentamento) que cria a abertura cognitiva que é preenchida pela ideologia, que uma vez socializada resultará na mobilização (actos terroristas) que, por sua vez, irá gerar uma campanha de sensibilização ao descontentamento do indivíduo/grupo, recomeçando deste modo o processo. Trata-se de um ciclo vicioso e, logo, os académicos sugerem a interrupção do ciclo no ponto de mobilização.

De volta ao desengajamento. Na teoria parece perfeito, já que uma vez capturado o terrorista, este é sujeito a um processo social e psicológico ao fim do qual ele alegadamente não matará [mais] ninguém ainda que retenha as suas idéias extremistas.
Soa-nos bem, mas depois há algumas questões a serem respondidas:
- Como é que irão as unidades de contraterrorismo garantir que os extremistas violentos desengajados não alimentarão indivíduos susceptíveis com a sua ideologia radical?
- Se os extremistas violentos desengajados expressarem a sua ideologia a indivíduos que estiverem cognitivamente abertos às suas idéias radicais e que, mais tarde, são mobilizados a agir segundo a ideologia transmitida: não estarão os extremistas desengajados na verdade ainda engajados em terrorismo por incitamento?
- Quem será considerado desengajado do terrorismo: qualquer um que altere o seu comportamento sozinho, ou somente aqueles que possuam um certificado passado por um programa holístico de quebra de terrorismo?
- Já ficou estabelecido que a mobilização necessita de ser interrompida, mas, até agora, há pouca informação que indique como é que devemos fazê-lo. Já ouvimos falar de programas de desradicalização (na Indonésia, na Arábia Saudita, em países escandinavos) onde é susposto os elementos serem submetidos a um tratamento para mudar as suas crenças (e por consequência o seu comportamento); contudo, como é que é suposta ocorrer a ruptura entre a socialização da ideologia e a mobilização para o terrorismo exactamente?

Jessica Stern (in Deradicalization or Disengagement of Terrorists: is it possible?) escreveu:
"Said Ali al-Shihri, que foi repatriado para a Arábia Saudita em 2007, concluiu o programa de desradicalização saudita. Depois de ter saido do centro de desradicalização tornou-se o número dois da Al-Qaeda no Iémen"
Se sujeitar elementos radicalizados a programas para mudar as suas crenças pode não produzir os resultados desejados; não poderemos então ter a certeza de que medidas de desengajamento possam vir a ter um efeito pretendido - ainda que a razão por detrás da mobilização seja de cariz social (suponhamos que o indivíduo radicalizado se tenha juntado ao terrorismo porque os seus amigos, ou familiares, o fizeram - elos emocionais são muito mais dificeis de quebrar do que os elos ideológicos, por isso devemos perguntarmo-nos como é que se procederia à tal quebra).

Até recebermos mais informação acerca do assunto, não podemos estar seguros de que a desmobilização seja, na verdade, uma medida de CT eficaz.



[Este Blogue agradece a Cristina Caravaggio Giancchini pela sua preciosa contribuição]


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