Sudão: Proxy Iraniano & Taqiyya Política


Graças a Scott Morgan (presidente da Red Eagle Enterprises) tivemos acesso à acta de uma reunião da Comissão Militar e de Segurança ocorrida, em Agosto passado, no Instituto de Defesa Nacional, em Khartoum (Sudão). Este documento (cuja autenticidade foi confirmada aqui) ajuda-nos a entender como é que a liderança sudanesa pensa e opera:

Darfur & Sudão do Sul
O Sudão insiste em se meter nos assuntos do 193º país soberano, não só por razões económicas mas também devido à percepção de que o Presidente Salva Kiir deseja mudar o governo Islâmico em Khartoum (apoiando, deste modo, os partidos da oposição). Para além disso, o Sudão suspeita da presença americana e israelita em Juba, já para não falar do apoio que o Sul recebe do Uganda. Se o governo em Khartoum se sentir ameaçado por estas relações, então devemos contar com um comportamento agressivo, por parte do Sudão, afim de reaver território e proteger o governo Islâmico “Agora temos a informação necessária que nos permitirá tomar a decisão certa contra o Sul e Uganda, e para lidar com os movimentos que colaboram com eles.”

"Logo, temos de apoiar todos os esforços do Mbeki. Mas não estou certo de que eles vão concordar com a opção Mbeki, porque todos eles adoptaram o Projecto Sudão Novo...” esta declaração sugere que o governo sudanês está disposto a aceitar as recomendações feitas por Thabo Mbeki, o principal negociador da crise de Darfur; contudo, na semana passada, fomos informados que o Sr Mbeki suspendeu as conversações depois do Presidente al-Bashir ter rejeitado o pedido para extender o mandato da delegação do governo afim de poder negociar uma série de exigências vitais dos rebeldes. Se o Sudão se recusar a abordar as exigências mais imediatas então poderemos esperar que as tensões escalem em mais uma frente.

Taqiyya Política para com o Ocidente
"Manteremos a oposição, a Força do Consenso (FC), para preservar a nossa imagem aos olhos da opinião pública internacional e regional.”

Taqiyya política: já que o ocidente é obcecado pela democracia e pela pluralidade política (e muitas nações africanas já se estão a virar para a democracia [com contornos ocidentais]), o governo permite a existência de partidos da oposição para obter a sua graça e talvez desviar as atenções das suas actividades subversivas. Contudo, o Sudão deve-se proteger e, para tal, o governo coloca agentes seus nos diversos partidos para influenciar o comportamento da oposição “Até o Partido Umma (Nacional) foi infiltrado de modo a dominarmos o processo de tomada de decisão dentro do partido” - o esforço é grande para impedir a queda do governo islâmico.

Taqiyya Política para com os Amigos
O Sudão serve o Irão (com quem mantém uma relação estratégica a nível de defesa e de segurança) e trabalha com os Países do Golfo (de quem esperam investimento). Ao ler a acta, poderemos entender que os Países do Golfo vêem a amizade entre o Sudão e o Irão como uma ameaça ao Sunismo, uma vez que o Sudão permite que o Irão “opere mais de 200 centros culturais que convertem ao Xiismo” e envia armas pelo Sudão “através do Mar Vermelho para o grupo de Abd al-Malik Al-Huthi's no Iémen”; logo, a solução sudanesa é “enganar os estados do Golfo ao abertamente tomar determinados passos e anunciar procedimentos de modo a melhorar as relações diplomáticas com eles.” (i.e. Depois de consultar com o Irão, o Sudão irá fechar muitos dos centros culturais xiitas para apaziguar os países árabes) para garantir o fluxo de fundos sunitas.
Ainda que o Sudão se veja forçado a fazer a vontade aos estados árabes (que se preocupam com a influência e presença militar iranianas no país), ele decidiu que iria “trabalhar estrategicamente com o Irão, em total segredo e numa escala limitada, através da inteligência militar e segurança.” até porque o Irão é o único país que “tem a coragem de dizer não ao ocidente inteiro.” (isto é, os iranianos têm mais espaço de manobra para agir de acordo com os interesses sudaneses, sem que o ocidente interfira).

Uma Ameaça para a Segurança Mundial
Não é segredo nenhum que o Sudão é um santuário para grupos terroristas (o Bin Laden da AQ viveu ali; elementos do Hamas passam tempo ali; membros da Irmandade Muçulmana vivem ali etc) e este país nem sequer tenta disfarçar “(..) temos muitas organizações Islâmicas Sunito-Salafistas que pertencem a diferentes grupos radicais de todo o mundo.”
Seguindo a linha da Taqiyya política, o Sudão prometeu ao Egípto que iria manter a Irmandade Muçulmana sob control (se Cairo, em troca, controlasse as actividades da oposição e das milícias sudanesas no seu território); contudo, não se pode confiar na liderança sudanesa porque esta já admitiu que passa informação para o Irão, que por sua vez utiliza esses grupos sunitas a seu favor “Temos relações com todos os Movimentos Islâmicos do mundo e nós representamos a ligação entre o Irão e todos este grupos islâmicos.”
Khartoum também confessa que infiltrou todas as embaixasas (que incluem as dos EUA, Canadá, das nações da UE, Etiópia, Índia, Brasil etc) “Todas as embaixadas e consulados em Khartoum estão infiltrados e os nossos elementos dizem-nos quem entra e quem sai.” - uma grave quebra de segurança para estas instituições se pensarmos no relacionamento entre o Sudão e as organizações Islâmico-Salafistas.

Mas afinal o que é que quer o Sudão?
Primeiro, quer desenvolver-se (e para isso, está disposto a exercer duplicidade política); depois quer proteger o governo islâmico a todo o custo (i.e. de novo através da duplicidade política: mostra ao ocidente que permite pluralidade política ao mesmo tempo que infiltra os partidos da oposição para suprimir resultados indesejados); quer servir como local de trânsito para as armas iranianas; quer fazer ingerência nos assuntos internos do Sudão do Sul (seja através de assistência directa aos rebeldes ou através de campanhas de desinformação para desestabilizar o país), provavelmente para impedir o Sul de avançar com o planeado oleoduto entre o Uganda-Quénia-Sudão do Sul – que iria obliterar de uma vez por todas qualquer hipótese do Sul exportar petróleo via os oleodutos sudaneses.
O Sudão é um perigo para a estabilidade regional e internacional. Se pensarmos nele como proxy iraniano (tal como a Síria e o Líbano sob a unfluência do Hezbollah); se pensarmos nele a passar armas iranianas aos Séléka na RCA, aos Zaidis no Iémen, ao Hamas em Gaza e todos os outros grupos anti-governo na África ocidental; se pensarmos nele a interferir com o Uganda e com o Sudão do Sul (e quiçá o Quénia, um amigo próximo do ocidente e de Israel), não é difícil compreender o porquê que este país é um perigo para os interesses do mundo livre.
A questão é: deveremos tratar do Irão afim de vermos estabilidade no continente africano?


(Agradeço a Scott Morgan tanto o link para a acta como também a maravilhosa conversa que tivemos acerca do Sudão)

Comentários

  1. Olá, Max!

    Eu acho que se deva tratar do Irão sem demora; os persas com a capa de serem maometanos xiitas, andam a borrar o mundo com as suas jogadas políticas, só com o intuíto de ser um protagonista de peso na Árabia e também controlar a Liga Árabe.

    Bom, ponto de vista.

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    1. Olá Lenny :D!

      Concordo. E até atingirem o seu objectivo provocarão conflitos atrás de conflitos.
      Obrigada e agradeço também o teu comentário :D.

      Beijinhos

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