Servir: Significado em Portugal



Servir é um vocábulo que significa coisas diferentes consoante a cultura dos diferentes países. Por exemplo, para um anglo-saxónico servir é o desempenho de um dever, é a entrega de si (é quase como se fosse uma grandeza espiritual); mas em Portugal é um termo traumático.

Tenho vindo a reparar que a palavra “servir” e seus derivados tornaram as pessoas tão desconfortáveis que certas profissões mudaram de estatuto, embora o papel permaneça sendo o mesmo; senão vejamos: os criados passaram a ser empregados domésticos; a doméstica passou a ser dona de casa ou mãe não-trabalhadora; os serventes passaram a ser auxiliares; os contínuos passaram a ser auxiliares de educação; a mulher-a-dias passou a ser gestora do lar; as hospedeiras passaram a ser assistentes de bordo; a empregada de balção passou a ser assistente ou operadora de loja; o caixeiro viajante passou a ser vendedor externo etc, etc...

Eu sou a favor da ascensão social tanto quanto o meu próximo, mas as pessoas não querem servir, querem é ser compradas; não pretendem trabalhar, querem é ser subsidiadas; não desejam beneficiar o seu país nem os seus concidadãos, querem é ser vistos aos berros, no parlamento, discutindo inutilidades; não respeitam coisa alguma, mas esperam reconhecimento; condenam a corrupção, mas praticam o nepotismo; não descontaram para a sua reforma, mas sobrecarregam o erário público; não gostam dos bem sucedidos, mas “Os ricos que paguem a crise!”.

Porque será que em Portugal o verbo “servir” é um vocábulo tão desprezado? Uns dirão que lhes lembra humilhação, porque serviram o marido, durante quarenta anos, e só ganharam marcas de toda a espécie; outros pensarão, bem no seu intímo, na quantidade de anos que estiveram ao serviço da família X, e só tiveram dissabores, pois nunca obtiveram um agradecimento sentido e, como se não bastasse, à sua querida e única filhota nunca lhe foi permitido andar pela casa nem sequer aproximar-se da piscina; alguns dirão que ao serviço da Pátria, durante a 2ª guerra mundial, os seus antepassados cumpriram a sua obrigação humanitária e acabaram destituídos; aqueles com a voz embargada gritarão que defenderam portugal, durante a guerra colonial, perderam partes do seu corpo, e até hoje estão cronicamente traumatizados, sem que o governo de Portugal lhes conceda a devida compensação.

Devo, então, depreender que o atraso do país se deve à falta de entendimento da palavra “servir”, já que a maioria da classe dos funcionários públicos e, a grande fatia dos políticos portugueses são todos provenientes de pessoas que se sentiram espezinhadas por esse termo e, que por tal razão, enquanto cresciam, juraram desvalorizá-la como modo de apaziguar a humilhação que feriu de morte a sua alma?  Se assim é, então, este país dificilmente sairá da cepa torta.

Enquanto o poder estiver infectado de gente com propósitos e intenções duvidosas portugal não poderá avançar. Nascemos todos para servir, de uma maneira ou de outra; e este país não deve servir de plataforma para actos de vingança mesquinhos: se os vossos progenitores foram vítimas de servilismo, esse foi o caminho dos vossos papás e não vosso.

Meus caros trabalhadores da função pública, o aparelho do estado é de todos! Caros senhores deputados, a Assembleia da República é temporariamente vossa; por isso acho que devo lembrar-lhes que Portugal é uma mesa preparada para todos embora só haja lugar para quem nela saiba estar, logo, não afrontem os demais convivas ao barrar o pão com a faca do peixe; e mais ainda, permitam-me por favor que vos dê uma dica: a envolvente complicação na etiqueta faz com que se aperfeiçoe o uso da finesse psicológica e, o belo disto é que ninguém tem de aturar os vossos recalcamentos.

Comentários

  1. Tomara eu que em Portugal, as pessoas se regessem por esses parâmetros, mas infelizmente é verdade, que desde os fufuncionários públicos aos deputados, muitos deixam a desejar. Servir é um dever nacional, como o é em todo o mundo, mas aqui parece que o dever é servirem-se do País. Quando isso mudar Portugal voltará a ser grande.

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  2. Olá Lenny,

    Como sempre: um trabalho bem feito, parabéns :).
    Adorei a mensagem: simples e directa.

    A minha mãe sempre me disse que se não soubermos servir jamais poderemos ser servidos - e isto já diz tudo.

    Beijocas

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  3. Ahahahahahaha....Ahahahahah...epá, desculpem-me os presentes pela gargalhada mas este post foi o máximo!
    Concordo com o Anónimo; concordo com a Max; mas sobretudo concordo contigo, Lenny! Subscrevo tudo o que disseste.
    Gostei sobretudo da imagem...yah, só alguns mesmos.

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