Comentário: Debate Vice-Presidencial Americano

Fim do Debate Vice-Presidencial (Fonte: CNN)

Na semana passada, no dia 11 de Outubro, ocorreu o fabuloso debate vice-presidencial.

Primeiro, gostaria de congratular a moderação fantástica de Martha Raddatz. Segundo, parabéns ao VP Biden e ao congressista Ryan: fizeram uma excelente exibição. Terceiro, para aqueles que acusam o VP Biden de ter sido agressivo ou mal-educado: aquilo era um debate e, não uma conversa à hora do chá. Num debate, espera-se que os gladiadores se degladiem; e, foi exactamente isso que foi feito. Quarto, o congressista Ryan - para colocar a sua campanha ao centro do espectro político - deu a impressão de estar disposto a dizer o quer que fosse para vender o seu produto (muito à semelhança de Mitt Romney).

Como trabalho no campo da política internacional, comentarei somente os pontos pertinentes à comunidade international:

1) O congressista Ryan repetiu imensas vezes que a administração Obama colocou a América numa posição de fraqueza; ao que o VP Biden respondeu "Este é um indivíduo [Obama] que restaurou as nossas alianças para que o resto do mundo nos seguisse de novo" - estas palavras dizem tudo. O mundo está, de novo, mais que disposto a deixar-se conduzir pelos Estados Unidos da América.

2) O sr. Ryan foi extremamente demagógico quando abordou a questão do Iraque, porque não foi o braço de ferro político, que temos vindo a testemunhar, que mostrou aos ayatollahs que as sanções são uma piada; é a própria América, independentemente de quem seja o seu presidente, que causa tamanho desprezo no clérigo Persa. Contudo, concordo com Paul Ryan quando diz que o Irão não mudou de ideias quanto ao seu programa nuclear.
O rep. Ryan mencionou, pelo menos duas vezes, o silêncio dos EUA perante a insurreição do Movimento Verde; certamente uma crítica àquilo que George Friedman apelidou de "nova doutrina estrangeira americana; na qual os EUA não se responsabilizam primariamente pelos eventos, permitindo ao invés que as crises regionais se desenrolem até que se atinja um novo equilíbrio regional"; contudo devemos recordar-nos que a doutrina obsoleta americana - advogada pela campanha republicana - foi exactamente aquela que deu lugar, ao longo dos anos, ao sentimento anti-Ocidente no Médio Oriente e foi, principalmente, o que deu poder ao Irão; porque quando os EUA invadiram o Iraque, e depuseram Saddam Hussein, retiraram o único obstáculo às Ambições Imperialistas dos ayatollahs na região; querendo isto dizer que a América fez um enorme favor ao Irão. E é por isso que a Pérsia faz pouco dos EUA e dos seu aliados, até hoje.

3) O congressista Ryan (seguindo a estratégia republicana de evidenciar que Israel e a administração Obama são adversários tácitos) foi extremamente falacioso ao dizer que "Eles [Iranianos] vêem o presidente Obama em Nova Iorque no mesmo dia que Bibi Netanyanu e ele, em vez de se encontrar com ele, vai a um...talk show diário" porque isto é uma mentira pegada - o presidente Obama esteve em Nova Iorque no dia 25 de Setembro para falar perante a Assembleia Geral das Nações Unidas; e, o PM Netanyahu chegou aos EUA no dia 27 de Setembro para comparecer perante a AG da ONU (video da sua chegada). A não ser que o sr. Ryan se estivesse a queixar do presidente Obama não se ter encontrado com o presidente Egípcio - que de facto esteve em Nova Iorque no mesmo dia que o presidente Americano - depois do presidente Mursi não ter claramente condenado o ataque à embaixada Americana, no Cairo, no dia do aniversário do 9/11.
O que eu acho espantoso é a falta de respeito que alguns republicanos Cristãos demonstram ter pelo Judaísmo: primeiro, o Mitt Romney marca a sua visita a Eretz Yisrael para o Tisha b'Av (um feriado de Jejum), tendo aterrado no país num Shabbat; depois, o seu candidato à vice-presidência presume que o PM Netanyahu fosse algum dia estar em Nova Iorque no Yom Kippur (o mais Sagrado Feriado Judaico).

4) O congressista Ryan pareceu não saber como funciona o Conselho de Segurança da ONU (já que chegou ao ponto de sugerir que a administração Obama "permitiu" que a Rússia "sabotasse as sanções" com o seu veto), por isso achámos por bem dar-lhe uma ajudinha - o Conselho de Segurança das Nações Unidas é composto por 5 membros permanentes (Reino Unido, Estados Unidos da América, França, Rússia, China) e  por 10 membros não-permanentes (presentemente: Portugal, Marrocos, Paquistão, Guatemala, Togo, Azerbeijão, África do Sul, Índia, Alemanha, Colômbia). Somente os cinco membros permanentes possuem poder de veto - por isso, não precisam da permissão de ninguém para vetar; já que esse direito lhe foi concedido desde o início.

5) Paul Ryan fez mal em insistir que os EUA não devessem sair completamente do Afeganistão; porque ao fazê-lo confessou ao mundo que a sua campanha tem realmente Ambições Imperialistas tanto na região como no Médio Oriente (especialmente, quando foi ambíguo em relação à Síria. A propósito disso; ele afirmou que ninguém "está a propôr enviar tropas para a Síria. Tropas Americanas" então a que tropas se referia ele? Isto é algo que a comunidade internacional precisa de se perguntar e preparar). Está mais que na altura dos Afegãos tomarem conta do seu país e se responsabilizarem pela própria segurança. Os EUA já atingiram o objectivo daquela guerra: Osama Bin Laden está morto.
Outra coisa, mas o que vem a ser esta obsessão republicana pela Rússia? Não estamos mais na Guerra Fria. E para além disso, o papel da Rússia quanto à questão Síria não é exactamente o que parece ser.

Concordo tanto com o congressista Ryan como com o VP Biden no que toca ao aborto. Também eu acredito que a vida comece a partir da concepção; eu também sou contra o negar a vida a um feto; mas também penso não ter o direito de impôr o meu sentido de ética a outrém, restringindo assim a sua liberdade para escolher e, para enfrentar as consequências da sua escolha.

Houve, contudo, uma posição que fez soar os alarmes:
"Não vejo como uma pessoa possa separar a sua vida pública da privada ou mesmo da sua religião" (Paul Ryan)...terá ele confessado que não vê com bons olhos a separação entre o Estado e a Igreja?

Comentários

  1. Oie Max

    Difícil falar sobre temas polêmicos assim, mas creio que o aborto deva ser legalizado em casos específicos, em que pela medicina e pela ciência seja comprovada a necessidade do mesmo para salvar a vida da mãe, por exemplo. Enfim, vai da consciência de cada um e os governos devem refletir bem em todos os pontos ou lados dessa questão antes de se dizerem a favor ou contra.
    Querida, agradeço sua visitinhas viu?
    Bjão
    Tati

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    Respostas
    1. Oi Tati :D!

      Mas da polémica nasce a luz; por isso considero imperativo abordar estes temas - senão um destes dias acordamos e estamos de volta à idade média.

      Não gosto quando um governo impõe aos cidadãos certas práticas (sim, porque uma questão destas é do foro privado, da consciência de cada um). Um governo tem de ter em atenção que há contribuintes que concordam com A ou B e outros que não concordam, e como não concordam não vêem com bons olhos o facto do seu imposto estar a patrocinar certas práticas. Como bem sugeriste, é preciso reflectir bem acerca de todos os pontos antes de agirem com base na sua crença pessoal.

      Meu amor, não tens de ma agradecer: é um prazer! :D

      Tati, obrigada pelo teu super comentário :D.

      Beijosss

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