(des)Responsabilização Corporativa

Uma cena de Prisão de Francisco de Goya

Na semana passada, tive a oportunidade de assistir à audiência sobre o escândalo das escutas ilegais levada a cabo pela Comissão de Cultura, Media e Desporto, no parlamento Britânico; o que me levou a pensar acerca do nível de responsabilidade de um CEO ou de qualquer outro líder de uma companhia.

O cabeça de uma pequena empresa gere uma operação relativamente pequena juntamente com um número reduzido de empregados; logo é-lhe extremamente fácil saber acerca de tudo o que se passa no seu negócio e também de ser responsabilizado por qualquer mau-comportamento empresarial.
O director de uma empresa média já tem algumas pessoas a quem possa delegar algumas das suas responsabilidades. Não obstante, ainda consegue manter algum grau de controle directo acerca do que acontece na sua companhia e, por isso, ele também será imputável por qualquer malandrice empresarial.
Um presidente de uma grande empresa delega o "fardo" aos seus directores gerais, aos seus gestores financeiros, aos gestores de RH, aos gestores de Sindicatos, aos gestores gerais etc; o que nos poderia levar a perguntar o que raio faz exactamente um presidente de uma empresa.
Um CEO de uma corporação tem, sob as suas ordens, um vice-CEO; um COO, um vice-COO; um CFO, um vice-CFO (tem também um presidente e um vice-presidente para cada companhia que a corporação possua, e às vezes um presidente e um vice-presidente para cada departamento lucrativo) e assistentes pessoais, claro. Sabendo que o COO é responsável por outros directores e gestores; e que, por sua vez, o CFO é o cabeça de todos os gestores financeiros; não será difícil imaginar o quão fácil poderá ser para o CEO negar qualquer responsabilidade pelos erros cometidos pela corporação. Logo, também poder-nos-íamos questionar acerca da real função de um CEO.

Um presidente/CEO é como o Pai de qualquer instituição comercial; significando que (tal como um pai, ou uma mãe, que é suposto saber [e ser responsável por] tudo o que acontece dentro da sua família - quer seja pequena ou grande) qualquer presidente/CEO, digno desse nome, deveria estar ao corrente de todas as operações comerciais e como estas são levadas a cabo. Por essa razão, ele deveria ser responsabilizado por qualquer infracção corporativa.
Uma companhia, corporação ou holding não deveria ser uma zona franca para CEOs/presidentes anti-éticos. Delegar responsabilidades não equivale a desresponsabilização. Au contraire: equivale a dupla-responsabilização já que o cabeça da instituição (ou até departamento) seleccionou o indivíduo a quem os deveres foram delegados.

É extremamente perturbante quando um líder (de qualquer estirpe) comparece perante as autoridades e/ou membros do parlamento e, sem qualquer vergonha na cara, afirma "Não sei...não estou ao corrente...fui traído por aqueles em quem confiei!" sobretudo quando o seu trabalho é saber tudo e o mais ínfimo detalhe.

Não saber, não estar ao corrente de qualquer facto que tenha resultado na geração de milhões, mil milhões, de libras/dólares/euros constitui a prática de fraude; e CEOs/presidentes fraudulentos deveriam responsabilizar-se pela sua incompetência e demitir-se; e/ou ser incarcerados para que pudessem reflectir sobre a ética na Gestão de Empresas.

Comentários

  1. Olá Max!

    Concordo.
    Os Murdochs, infelizmente, são o reflexo do corrupto mundo empresarial. Só se preocupam com o aumento dos lucros e estão-se nas tintas (literalmente) para o que acontece aos empregados (que são os principais activos de qualquer empresa: sem eles, como ganharão tanto dinheiro?). Os Murdochs foram irresponsáveis: fecharam o NOTW, colocaram toda a gente na rua (no meio desta crise económica) e ainda vão para a comissão dizer que não sabiam de nada, que de nada eram responsáveis blá blá blá...

    Falemos de Portugal: quantos gestores no país são fraudulentos? Imensos. Cometem fraude atrás de fraude (evasão fiscal, evasão à segurança social, lucros desviados para rotas obscuras, gritando miséria mas mantendo os salários altos dos executivos) demonstram uma total falta de respeito para com os assalariados, despedem-nos (sem encontrar formas criativas de manter a empresa a trabalhar...mas também se o objectivo é cometer fraude, a criatividade é redireccionada para o crime), declaram falência e pronto...vêem-se livres da "chatice" e com tempo para gozar dos lucros desviados. The End....

    Já não falarei dos Presidentes de Bancos que permitiram (se não sugeriram) que as suas instituições não dessem crédito a quem, de facto, necessitava para que o governo não se visse pressionado com a alta taxa de desemprego (que tem um alto preço, a vários níveis) e para que o nome de Portugal não estivesse a ser arrastado na lama, como está agora...
    Eles também são responsáveis!

    Yah, incompetentes, negligentes, fraudulentos: deveriam ir todos para a cadeia!

    ResponderEliminar
  2. Olá Carla :D,

    Perdoe-me a resposta tardia...

    O comportamento dos Murdochs é suspeito, sem dúvida.

    Quanto ao caso Português: a impunidade generalizada é chocante. E o que fazem os legisladores? Nada.
    A esquerda gosta de lutar contra a mudança da Lei do Trabalho (que é benéfica para atrair investimento para Portugal e, logo, para criar mais empregos) mas não os vejos insistir na mudança da lei para imputar gestores fraudulentos (que esses sim, são um ataque aos direitos dos trabalhadores).

    É, os bancos têm a sua quota parte nesta crise...ainda que digam que as coisas não são bem assim (ao falarem de pressões do governo socialista...porque não o denunciaram?)...

    Carla, faz bem em expressar os seus pensamentos. Obrigada por partilhar a sua opinião :D!

    Um abraço

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

O Etnias aprecia toda a sorte de comentários, já que aqui se defende a liberdade de expressão; contudo, reservamo-nos o direito de apagar Comentos de Trolls; comentários difamatórios e ofensivos (e.g. racistas e anti-Semitas) mais aqueles que contenham asneiras em excesso. Este blog não considera que a vulgaridade esteja protegida pelo direito à liberdade de expressão. Um abraço